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Uso de drogas é responsável por alto índice de casos de AIDS

Esta semana fui em uma coletiva do Sindicato Médico do Rio Grande do Sul, SIMERS. O assunto era a AIDS no RS. Tive acesso a números que me deixaram apavorada. Segue um dos dois boletins que fiz sobre o assunto para a Radioweb. Abaixo está o texto da matéria.

Clique AQUI para ouvir o boletim.

O Rio Grande do Sul é campeão no número de incidência de casos de AIDS notificados no país. Relatório do Ministério da Saúde referente a 2007 indica 43 vírgula 8 casos a cada 100 mil habitantes. Segundo Gerson Fernando, médico chefe da vigilância epidemiológica nacional, o uso de drogas é responsável pelos altos índices no estado.

Gerson enfatiza que o grupo considerado de risco é composto por usuários de drogas, homens que transam com homens e profissionais do sexo. Porto Alegre também lidera a lista das capitais com mais incidências de casos de AIDS notificados. O número chega a 111 vírgula 5 casos por cem mil habitantes. O segundo colocado é Florianópolis, com 57 vírgula 4 casos, o que representa quase a metade da Capital gaúcha. Além disso, entre as 20 cidades brasileiras com mais de 50 mil habitantes e maior taxa de incidência de AIDS, 15 são gaúchas.

Agência Radioweb, de Porto Alegre, Ananda Etges.

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Viúvas da violência

As mortes que mudaram a vida de três mulheres nas vilas de Porto Alegre

Mais de quatro mortes por dia. O número assusta, mas a estatística da Secretaria de Segurança do Rio Grande do Sul evidencia um drama social: homicídio. Em 2008, foram 1.641 assassinatos. Em comparação com o ano anterior, o aumento é de 4,38%.
Os números de apreensões de drogas também subiram no Estado. Em 2008 foram apreendidas quase quatro toneladas de maconha, número 157% superior em relação ao dado de 2007. Considerando o crack e a cocaína, a situação não é diferente.
A relação entre homicídio e tráfico de drogas é evidente, conforme afirma o diretor do Departamento de Investigações sobre Narcóticos (DENARC), delegado João Bancolini. Ele destaca que cerca de 75% dos crimes têm ligação com tóxicos. Os assassinatos seriam na maioria das vezes por dívidas. Porém, também por acerto de contas (conflitos entre famílias e gangues rivais), disputa de território e queima de arquivo.
O perfil é claro: homens, na faixa de idade entre 15 e 30 anos, com antecedentes criminais. Geralmente a passagem pela polícia envolve drogas e porte ilegal de armas. A cena do crime também se repete, becos estreitos e escuros, em cantos perdidos de comunidades carentes. Na maioria das vezes, a marca no corpo é de bala, mas a vítima também pode ser retalhada com faca. Outro detalhe comum nas ocorrências de homicídio: ninguém viu nada. Ninguém ouviu nada. Ninguém sabe de nada.
Um perfil e diversos números. Uma realidade quase padronizada. No entanto, ocultas pelas estatísticas estão famílias ligadas por um sentimento em comum: a dor da morte, a morte matada.
Sobram viúvas para contar a história. Mulheres que perderam de forma brutal uma das pessoas que mais amavam. Ficaram apenas com a angústia e com a lembrança viva do amor que tiveram: os filhos. São as viúvas do tráfico. As damas da violência.

A que não busca resposta

“Foi terrível a forma que aconteceu. Não sei da onde tirei tanta coragem para encarar aquilo”, conta Ana Rita Rodrigues dos Santos, mãe de três crianças, que perdeu o marido há dois anos.
Vinte e sete de fevereiro de 2007. Homens armados invadiram a casa da auxiliar de limpeza no bairro Guajuviras, em Canoas, exigindo dinheiro. O marido Lidionir, os filhos Camile, de 11 meses, Diordan, de 9 anos, e ela são reunidos na sala. “Se vocês não falarem onde está o dinheiro, vou estourar os miolos da menina”, gritava um dos encapuzados apontando a arma para o bebê, que começou a chorar. A mãe tentou acalmar a criança. Não obteve sucesso. Resultado: foi jogada contra a parede pelos assaltantes que também desferiram tapas no seu rosto. “Rita, cuida das crianças, cuida dos meus filhos”, pediu Lidionir antes de ser levado para a sala. Do quarto, a família escuta um tiro. O servente de obras sangra, mas consegue fugir. Os indivíduos vão atrás.
Com medo que voltassem para procurar a família, Ana Rita decidiu sair de casa com os filhos para se esconder. Sob um lençol esquecido no varal se abrigaram. Foi a salvação da família. As crianças, que até então estavam chorando, ficaram quietas. Imóveis. “Quando os caras voltaram, rondaram a casa nos procurando. Quebraram tudo, não sobrou nem um copo. Não nos encontraram por sorte”.
Na cabeça de Ana Rita, o desfecho daquela noite seria trágico: “Eles devem me matar, mas o que vão fazer com os meus filhos?”. O final da história foi diferente, mas não teve nada de feliz. Lidionir conseguiu escapar por uns minutos dos homens que o seguiram, mas logo tiros deram fim a sua vida.
“Eu quero olhar no olho de quem matou o meu pai para perguntar por que fez isso”, fala Diordan. O que motivou a invasão na casa dos Santos a faxineira jura não compreender: “No começo, eu queria saber, mas agora eu desisti. Já estava virando uma paranóia. Se continuasse tentando me aprofundar para saber o motivo, já estaria dentro do hospital São Pedro”.
Lidionir Garcia dos Santos foi preso, julgado e condenado por assalto a mão armada em 2000. Segundo conhecidos da família, ele era chefe do tráfico. Passou seis anos entre a penitenciária de Charqueadas e o Central até conseguir a liberdade condicional – menos de um mês antes de morrer. Mesmo durante o período em que ficou atrás das grades, Ana Rita considerou importante a atuação dele na educação dos três filhos – o mais velho, Cristian, estava na casa da avó quando o pai morreu. Frequentemente as crianças iam visitar o pai, que lhes dava conselhos: “O Lídio só precisava olhar para eles que se acalmavam”.
Seguir morando no local onde viu a família ruir não estava nos planos. Alguns dias após a morte do servente de obras, foram viver ao lado de Eva Pinto Garcia, avó das crianças, na vila São Pedro.
Com a morte do marido, as dificuldades financeiras tornaram-se maiores. Ana Rita intensificou a carga de trabalho para dar conta das despesas no final do mês. Sai de manhã antes das 7h e só volta com o pôr-do-sol: “Não sobra tempo pra mim. O pouco que sobra é para os meus filhos. A minha vida agora é a vida deles”. O maior temor de Ana Rita, aos 31 anos, é comum a outras mulheres que perderam o marido para a violência. “Eu tenho medo de perder um dos meus filhos para o mundo do crime”, confessa.
A melhor lembrança ao lado do falecido, que conheceu no colégio quando ele tinha 20 e ela 15 anos é fácil de recordar: “Os finais de semana que passávamos juntos. Ou íamos na pracinha passear ou fazíamos churrasco em casa”. O pai, o marido e o chefe de família fazem falta. A pequena Camile não se lembra dele e já chorou várias vezes quando os colegas diziam que ela órfã no lado paterno. Com as bonecas ela conversa: “Hoje o meu pai vem cantar pra gente, hoje ele vem”.

A que segurou o corpo

Um homem de um lado do beco e outro do lado oposto. Uma tocaia foi armada. Mais de dez tiros disparados. Uma peneira. Se tivesse mais alguém junto, morreria também. Enquanto uma vida era interrompida, outra jorrava tristeza. A dor foi tanta que deixou em estado de choque. Mas a paralisia emocional não durou alguns dias apenas. Estendeu-se por meses.
Fevereiro de 2005. Rodrigo Dutra dos Santos, 25 anos, foi assassinado na Vila São Pedro, em Porto Alegre. Junto com esta morte, uma mulher fica viúva e três crianças órfãs de pai.
Darmiana Assis da Silva, 25 anos, estava em casa quando escutou os tiros. Não deu bola. Os filhos Diego, de oito anos, Antony, de cinco, e Suellen, de três meses, estavam junto, porém não compreenderam o que aconteceu. Quando a avisaram, não acreditou. Viu o corpo estendido no chão, mas não percebeu marcas de sangue: “Eu fiquei tão mal que não chorei”.
Os dias que se seguiram foram difíceis. Entrou em depressão e um semblante de apatia tomou conta do seu rosto. Deixou de cuidar de si. Não penteava os cabelos, não comia, nem tomava banho. Só colocava a filha de três meses para mamar e dormir. “Eu enxergava tudo preto e branco, as coisas já não tinham mais cor,” relembra.
O cenário de depressão fez a pequena Suellen parar de crescer. A menina ficou um longo período sem ganhar peso. Foi só quando a mãe mudou de casa, um ano depois, e deixou as lembranças mais fortes de Rodrigo para trás que a garota ficou maiorzinha. No entanto, mesmo agora com quatro anos o corpo segue mirrado.
Para ajudar na superação da perda, Darmiana decidiu que era necessário se ocupar com algum trabalho. O curso de manicure veio a calhar. Ela atende onde for necessário, seja na sua casa ou na das clientes.
O casal nunca chegou a morar junto. A mãe da jovem tinha os rins debilitados e a filha não queria deixá-la sozinha em casa. O que Darmiana mais gostava no namorado era o respeito que tinha com os filhos. Quando discutiam, evitava estar perto deles.
O envolvimento com drogas afastou o casal e iniciou quando Rodrigo conheceu Lidionir Garcia dos Santos, que era chefe do tráfico: “Isso daí ou é cadeia ou é morte. A família toda falou com ele, mas não adiantou.” Quando a caçula nasceu, os dois não estavam namorando mais, no entanto Rodrigo fez questão de conhecer a filha.
Desde que o companheiro morreu, os caminhos que levam ao coração foram interditados. O medo de ter alguém novamente é grande. “Eu tenho criança e não posso colocar qualquer um para dentro de casa”, explica. A manicure teve outros relacionamentos, mas nenhum deles sério a ponto do sujeito entrar no convívio familiar.
O maior temor de Darmiana atualmente é de que seus filhos entrem para o mundo do crime. Para não trilharem o mesmo caminho do pai, ela sabe que a educação é fundamental na formação. Há alguns dias, tinha visitado a escola das crianças e escutou elogios das professoras. “O que eu mais quero é que os meus filhos sejam do bem. Aqui na vila é o que menos se tem. Mas não dá para trancar os meus filhos dentro de casa, tenho que soltar. Às vezes, eu dou uma olhada”.

A viúva duas vezes

Não é só o tráfico que destrói famílias em comunidades carentes. A violência se manifesta de outras formas, além das pedras de crack e das bocas de fumo. Na história de Márcia Cristiane Machado Rodrigues, de 34 anos, o luto atravessou a vida em dois momentos, ambos marcados pela crueldade.
Há seis anos ela convive com a perda do marido Clairton Bianchi. Ele tinha 26 anos quando foi morto e a deixou com três filhos. Claiton, de 15 anos, Cleiton, 11, e Edu, 8, guardam as poucas lembranças do pai. Uma delas está pendurada na parede da sala: a fotografia emoldurada de Márcia com o falecido.
“Foi morte matada”, conta a mulher com o olhar perdido pela janela. Ela explica que a prima de Clairton namorava um ladrão. A família era contra a relação, e a própria jovem não queria mais o namoro, em função das constantes agressões do companheiro que prometeu matar um tio da menina e o marido de Márcia. “Dito e feito, primeiro foi o tio, 8 meses depois o meu homem”. Seis tiros o atingiram, todos no tórax. Estava indo no banco acertar contas. No entanto, foi vítima de um outro acerto.
O casal estava junto há 12 anos. Embora tivessem filhos e morassem juntos, não eram oficialmente casados, e sim noivos. A viúva guarda todas as memórias póstumas, desde roupas até objetos. Além disso, visita com frequência o túmulo de Clairton no cemitério Jardim da Paz.
Entretanto, ele não é o único motivo que a faz ir com as crianças até o local. Lucas Machado da Conceição, pai do pequeno Lucas, de um ano, também está enterrado no extenso gramado.
Ele foi morto quando Márcia estava grávida de 4 meses do filho caçula. “Estava metido com roubo”. E um parceiro disparou contra ele, “sem querer”, durante um assalto em uma pizzaria. Apenas um tiro e bem certeiro, no coração. Márcia não chegou a morar com Lucas. Os dois brigavam por ela não concordar com as suas atividades: “Ele era trabalhador, mas viu que nesse negócio ganhava em um dia o que precisava de dois meses para receber como motorista”.
Agora, ela se desdobra em quatro para dar atenção aos meninos. E não quer saber de uma nova relação: “Essa coisa de marido… me arrepia”. Aluga uma peça da casa para uma senhora que tem um armazém no local.
Para aumentar a renda da família, trabalha com reciclagem, busca com sua kombi lixo em alguns estabelecimentos comerciais. E assim a família sobrevive: “Tem que criar eles, não adianta”.