AMO!, Eu por eu mesma

Agora fui

Hoje comecei a colocar a minha vida em caixas. A tão esperada mudança está acontecendo. Depois de um mês desesperada sem saber para onde ir encontrei um novo lar.
Já estava mais do que na hora de dar outro rumo para a minha vida. A solidão não me bastava mais. Quero gente. Quero companhia. Agora vou ter.
Revirar as minhas bagunças trouxe lembranças dos três anos e meio que morei na Lageado. Foram muitas noites jogando conversa fora com as gurias (minhas sempre visitantes), inúmeros negrinhos, horas de maratonas de Friends, faxinas embaladas por funk e crises. Sim, as crises foram muitas nesse período. Dúvidas, angústia, medo.
Cresci demais com a experiência de morar sozinha. Apenas 17 anos e um apartamento de dois quartos preenchido com meus sonhos, alguns móveis e objetos pessoais. Não foi fácil sair de uma casa com crianças, pátio, espaço e barulho. Sofri. Quebrei a cara sem mamãe e papai por perto. Mas aqui estou. Viva e feliz.

Ansiosa para a nova fase =)

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Meu Porto Alegre

Meu Porto Alegre

Começo hoje no blog uma série de fotos. A cada dia, vou mostrar um pouquinho do meu Porto Alegre através de imagens de celular. Vai ser um recorte da minha rotina.

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A primeira imagem é pré fim de semana. Foto na praça da Encol, bairro Petrópolis. Fui curtir o solzinho de inverno, tomar chimarrão e ler um pouco.

Jornalismo, Matéria, Mundo jornalístico, Observações

Viúvas da violência

As mortes que mudaram a vida de três mulheres nas vilas de Porto Alegre

Mais de quatro mortes por dia. O número assusta, mas a estatística da Secretaria de Segurança do Rio Grande do Sul evidencia um drama social: homicídio. Em 2008, foram 1.641 assassinatos. Em comparação com o ano anterior, o aumento é de 4,38%.
Os números de apreensões de drogas também subiram no Estado. Em 2008 foram apreendidas quase quatro toneladas de maconha, número 157% superior em relação ao dado de 2007. Considerando o crack e a cocaína, a situação não é diferente.
A relação entre homicídio e tráfico de drogas é evidente, conforme afirma o diretor do Departamento de Investigações sobre Narcóticos (DENARC), delegado João Bancolini. Ele destaca que cerca de 75% dos crimes têm ligação com tóxicos. Os assassinatos seriam na maioria das vezes por dívidas. Porém, também por acerto de contas (conflitos entre famílias e gangues rivais), disputa de território e queima de arquivo.
O perfil é claro: homens, na faixa de idade entre 15 e 30 anos, com antecedentes criminais. Geralmente a passagem pela polícia envolve drogas e porte ilegal de armas. A cena do crime também se repete, becos estreitos e escuros, em cantos perdidos de comunidades carentes. Na maioria das vezes, a marca no corpo é de bala, mas a vítima também pode ser retalhada com faca. Outro detalhe comum nas ocorrências de homicídio: ninguém viu nada. Ninguém ouviu nada. Ninguém sabe de nada.
Um perfil e diversos números. Uma realidade quase padronizada. No entanto, ocultas pelas estatísticas estão famílias ligadas por um sentimento em comum: a dor da morte, a morte matada.
Sobram viúvas para contar a história. Mulheres que perderam de forma brutal uma das pessoas que mais amavam. Ficaram apenas com a angústia e com a lembrança viva do amor que tiveram: os filhos. São as viúvas do tráfico. As damas da violência.

A que não busca resposta

“Foi terrível a forma que aconteceu. Não sei da onde tirei tanta coragem para encarar aquilo”, conta Ana Rita Rodrigues dos Santos, mãe de três crianças, que perdeu o marido há dois anos.
Vinte e sete de fevereiro de 2007. Homens armados invadiram a casa da auxiliar de limpeza no bairro Guajuviras, em Canoas, exigindo dinheiro. O marido Lidionir, os filhos Camile, de 11 meses, Diordan, de 9 anos, e ela são reunidos na sala. “Se vocês não falarem onde está o dinheiro, vou estourar os miolos da menina”, gritava um dos encapuzados apontando a arma para o bebê, que começou a chorar. A mãe tentou acalmar a criança. Não obteve sucesso. Resultado: foi jogada contra a parede pelos assaltantes que também desferiram tapas no seu rosto. “Rita, cuida das crianças, cuida dos meus filhos”, pediu Lidionir antes de ser levado para a sala. Do quarto, a família escuta um tiro. O servente de obras sangra, mas consegue fugir. Os indivíduos vão atrás.
Com medo que voltassem para procurar a família, Ana Rita decidiu sair de casa com os filhos para se esconder. Sob um lençol esquecido no varal se abrigaram. Foi a salvação da família. As crianças, que até então estavam chorando, ficaram quietas. Imóveis. “Quando os caras voltaram, rondaram a casa nos procurando. Quebraram tudo, não sobrou nem um copo. Não nos encontraram por sorte”.
Na cabeça de Ana Rita, o desfecho daquela noite seria trágico: “Eles devem me matar, mas o que vão fazer com os meus filhos?”. O final da história foi diferente, mas não teve nada de feliz. Lidionir conseguiu escapar por uns minutos dos homens que o seguiram, mas logo tiros deram fim a sua vida.
“Eu quero olhar no olho de quem matou o meu pai para perguntar por que fez isso”, fala Diordan. O que motivou a invasão na casa dos Santos a faxineira jura não compreender: “No começo, eu queria saber, mas agora eu desisti. Já estava virando uma paranóia. Se continuasse tentando me aprofundar para saber o motivo, já estaria dentro do hospital São Pedro”.
Lidionir Garcia dos Santos foi preso, julgado e condenado por assalto a mão armada em 2000. Segundo conhecidos da família, ele era chefe do tráfico. Passou seis anos entre a penitenciária de Charqueadas e o Central até conseguir a liberdade condicional – menos de um mês antes de morrer. Mesmo durante o período em que ficou atrás das grades, Ana Rita considerou importante a atuação dele na educação dos três filhos – o mais velho, Cristian, estava na casa da avó quando o pai morreu. Frequentemente as crianças iam visitar o pai, que lhes dava conselhos: “O Lídio só precisava olhar para eles que se acalmavam”.
Seguir morando no local onde viu a família ruir não estava nos planos. Alguns dias após a morte do servente de obras, foram viver ao lado de Eva Pinto Garcia, avó das crianças, na vila São Pedro.
Com a morte do marido, as dificuldades financeiras tornaram-se maiores. Ana Rita intensificou a carga de trabalho para dar conta das despesas no final do mês. Sai de manhã antes das 7h e só volta com o pôr-do-sol: “Não sobra tempo pra mim. O pouco que sobra é para os meus filhos. A minha vida agora é a vida deles”. O maior temor de Ana Rita, aos 31 anos, é comum a outras mulheres que perderam o marido para a violência. “Eu tenho medo de perder um dos meus filhos para o mundo do crime”, confessa.
A melhor lembrança ao lado do falecido, que conheceu no colégio quando ele tinha 20 e ela 15 anos é fácil de recordar: “Os finais de semana que passávamos juntos. Ou íamos na pracinha passear ou fazíamos churrasco em casa”. O pai, o marido e o chefe de família fazem falta. A pequena Camile não se lembra dele e já chorou várias vezes quando os colegas diziam que ela órfã no lado paterno. Com as bonecas ela conversa: “Hoje o meu pai vem cantar pra gente, hoje ele vem”.

A que segurou o corpo

Um homem de um lado do beco e outro do lado oposto. Uma tocaia foi armada. Mais de dez tiros disparados. Uma peneira. Se tivesse mais alguém junto, morreria também. Enquanto uma vida era interrompida, outra jorrava tristeza. A dor foi tanta que deixou em estado de choque. Mas a paralisia emocional não durou alguns dias apenas. Estendeu-se por meses.
Fevereiro de 2005. Rodrigo Dutra dos Santos, 25 anos, foi assassinado na Vila São Pedro, em Porto Alegre. Junto com esta morte, uma mulher fica viúva e três crianças órfãs de pai.
Darmiana Assis da Silva, 25 anos, estava em casa quando escutou os tiros. Não deu bola. Os filhos Diego, de oito anos, Antony, de cinco, e Suellen, de três meses, estavam junto, porém não compreenderam o que aconteceu. Quando a avisaram, não acreditou. Viu o corpo estendido no chão, mas não percebeu marcas de sangue: “Eu fiquei tão mal que não chorei”.
Os dias que se seguiram foram difíceis. Entrou em depressão e um semblante de apatia tomou conta do seu rosto. Deixou de cuidar de si. Não penteava os cabelos, não comia, nem tomava banho. Só colocava a filha de três meses para mamar e dormir. “Eu enxergava tudo preto e branco, as coisas já não tinham mais cor,” relembra.
O cenário de depressão fez a pequena Suellen parar de crescer. A menina ficou um longo período sem ganhar peso. Foi só quando a mãe mudou de casa, um ano depois, e deixou as lembranças mais fortes de Rodrigo para trás que a garota ficou maiorzinha. No entanto, mesmo agora com quatro anos o corpo segue mirrado.
Para ajudar na superação da perda, Darmiana decidiu que era necessário se ocupar com algum trabalho. O curso de manicure veio a calhar. Ela atende onde for necessário, seja na sua casa ou na das clientes.
O casal nunca chegou a morar junto. A mãe da jovem tinha os rins debilitados e a filha não queria deixá-la sozinha em casa. O que Darmiana mais gostava no namorado era o respeito que tinha com os filhos. Quando discutiam, evitava estar perto deles.
O envolvimento com drogas afastou o casal e iniciou quando Rodrigo conheceu Lidionir Garcia dos Santos, que era chefe do tráfico: “Isso daí ou é cadeia ou é morte. A família toda falou com ele, mas não adiantou.” Quando a caçula nasceu, os dois não estavam namorando mais, no entanto Rodrigo fez questão de conhecer a filha.
Desde que o companheiro morreu, os caminhos que levam ao coração foram interditados. O medo de ter alguém novamente é grande. “Eu tenho criança e não posso colocar qualquer um para dentro de casa”, explica. A manicure teve outros relacionamentos, mas nenhum deles sério a ponto do sujeito entrar no convívio familiar.
O maior temor de Darmiana atualmente é de que seus filhos entrem para o mundo do crime. Para não trilharem o mesmo caminho do pai, ela sabe que a educação é fundamental na formação. Há alguns dias, tinha visitado a escola das crianças e escutou elogios das professoras. “O que eu mais quero é que os meus filhos sejam do bem. Aqui na vila é o que menos se tem. Mas não dá para trancar os meus filhos dentro de casa, tenho que soltar. Às vezes, eu dou uma olhada”.

A viúva duas vezes

Não é só o tráfico que destrói famílias em comunidades carentes. A violência se manifesta de outras formas, além das pedras de crack e das bocas de fumo. Na história de Márcia Cristiane Machado Rodrigues, de 34 anos, o luto atravessou a vida em dois momentos, ambos marcados pela crueldade.
Há seis anos ela convive com a perda do marido Clairton Bianchi. Ele tinha 26 anos quando foi morto e a deixou com três filhos. Claiton, de 15 anos, Cleiton, 11, e Edu, 8, guardam as poucas lembranças do pai. Uma delas está pendurada na parede da sala: a fotografia emoldurada de Márcia com o falecido.
“Foi morte matada”, conta a mulher com o olhar perdido pela janela. Ela explica que a prima de Clairton namorava um ladrão. A família era contra a relação, e a própria jovem não queria mais o namoro, em função das constantes agressões do companheiro que prometeu matar um tio da menina e o marido de Márcia. “Dito e feito, primeiro foi o tio, 8 meses depois o meu homem”. Seis tiros o atingiram, todos no tórax. Estava indo no banco acertar contas. No entanto, foi vítima de um outro acerto.
O casal estava junto há 12 anos. Embora tivessem filhos e morassem juntos, não eram oficialmente casados, e sim noivos. A viúva guarda todas as memórias póstumas, desde roupas até objetos. Além disso, visita com frequência o túmulo de Clairton no cemitério Jardim da Paz.
Entretanto, ele não é o único motivo que a faz ir com as crianças até o local. Lucas Machado da Conceição, pai do pequeno Lucas, de um ano, também está enterrado no extenso gramado.
Ele foi morto quando Márcia estava grávida de 4 meses do filho caçula. “Estava metido com roubo”. E um parceiro disparou contra ele, “sem querer”, durante um assalto em uma pizzaria. Apenas um tiro e bem certeiro, no coração. Márcia não chegou a morar com Lucas. Os dois brigavam por ela não concordar com as suas atividades: “Ele era trabalhador, mas viu que nesse negócio ganhava em um dia o que precisava de dois meses para receber como motorista”.
Agora, ela se desdobra em quatro para dar atenção aos meninos. E não quer saber de uma nova relação: “Essa coisa de marido… me arrepia”. Aluga uma peça da casa para uma senhora que tem um armazém no local.
Para aumentar a renda da família, trabalha com reciclagem, busca com sua kombi lixo em alguns estabelecimentos comerciais. E assim a família sobrevive: “Tem que criar eles, não adianta”.