Eu por eu mesma, Just me, Londres, Observações, Saudades de Venâncio

Balanço de 3 meses

Nossa! Já se passaram 3 meses desde que eu cheguei em Londres. Muita coisa aconteceu neste período e minha vida deu mil e uma voltas em torno do céu e do inferno.

O primeiro dia foi meio chocante. Lembro que eu e a Paula passamos o maior sufoco para carregar as malas por meia quadra. Chegamos na porta preta do número 477 da High Road um tanto desconfiadas e nervosas. Logo o Danilo e o Fernando desceram para nos ajudar com as coisas. Quem diria que 3 meses depois eles seriam praticamente parte de uma nova família que criamos, a nossa querida família do “gueto”.

Mas foi justo o gueto que nos decepcionou no primeiro momento. Moramos em Tottenham, bairro da zona 3 de Londres (a cidade é dividida em anéis ao redor do centro e cada anel corresponde a uma zona; a região central é a zona 1 e os números aumentam conforme os bairros se afastam do miolo). O local é repleto de indianos. Tanto o jeito de falar inglês (com um sotaque pesado) quanto o modo grosseiro e desconfiado nos deixou assustadas no início. O primeiro pensamento que nos ocorreu: temos que fugir daqui.

No entanto, uma semana foi o suficiente para tudo mudar. Começamos a nos aproximar dos meninos da casa e eles passaram a ser o principal motivo para não deixarmos o gueto. Hoje estamos bem acomodadas e chamamos o flat de “nossa casa”.

Por falar em meninos, bem… eu conheci o Fábio. Nossa história começou entre conversas descomprometidas na cozinha. Um capítulo especial na minha história em Londres. Provavelmente um capítulo que vai se extender até o Brasil e que deve render um livro a parte.

Pensando no Brasil eu lembro de saudade… A saudade que começou forte, já foi diminuindo e agora toma conta de mim a cada lembrança. Tenho que controlar o playlist para evitar provocar a memória.

Atualmente tenho 3 empregos (sim!) e já consigo me manter com o que ganho. No entanto, o custo de vida em Londres é alto e até alcançar a estabilidade foi complicado.

É frustrante ter o mundo ao seus pés e não poder aproveitar plenamente todas as oportunidades que aparecem. Todo fim de semana têm shows fantásticos, espetáculos, estreias no cinema. Isso sem falar na quantidade de cidades maravilhosas que gostaria de conhecer na Inglaterra e os outros países que quero visitar na Europa. Entretanto… tudo se resume ao dinheiro. Então… é preciso planejar e ter paciência.

Sobre minha habilidade com o inglês, ponto principal desta viagem, já apresento evoluções importantes. Na escola estou no nível upper-intermediate e devo trocar de turma no início de agosto para a preparação para o IELTS, prova de proficiência.

Percebo que no dia-a-dia consigo me expressar com uma certa facilidade. Melhorei bastante a minha capacidade de ouvir e ler em inglês. Minha maior dificuldade ainda é falar ao telefone, pois dependendo do sotaque da pessoa fica bem complicado.

Em linhas gerais é isso… Estou vivendo um dia por vez e tentando aproveitar o melhor que Londres oferece. A saudade do Brasil e da minha vida em Porto Alegre (com todas as pessoas que fazem parte dela) é muita, porém tento pensar em tudo que estou aprendendo. No momento não tenho muitas certezas sobre esta experiência. Mas por enquanto posso afirmar: so far, so good.

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Eu por eu mesma, Just me

Ele tinha razão

Platão estava certo. Amar alguém é ter esse amor como nosso, antes de qualquer coisa. É um sentimento independente da outra pessoa, apenas ligado a ela.
Hoje eu comecei a entender.
“Eu vou cuidar, eu cuidarei dele… Eu vou cuidar do seu jardim”

Jornalismo

ESSA É A MINHA DIRETORA

Jornalista diplomado aprende o quê?

Por Mágda Rodrigues da Cunha* (artigo publicado em Zero Hora desta terça-feira, dia 23)

Muitos são os debates desde o dia 17 de junho, quando o STF decidiu pela extinção da obrigatoriedade do diploma para exercício da profissão de jornalista. Fala-se em retrocesso histórico, manutenção de qualidade de parte das empresas, garantia da liberdade de expressão prevista na Constituição, comparação com outras categorias profissionais e até com arte e literatura.

Mas quem estuda para ser jornalista aprende o quê? E este é um foco pouco iluminado até agora e que é papel das instituições de Ensino Superior esclarecer. Neste texto, falamos do lugar do ensino de Jornalismo, que existe há aproximadamente 60 anos no Brasil, quando o diploma sequer era obrigatório.E o que o jornalista aprende desde então? Arte, produção de informação desqualificada, repressão à liberdade de expressão? Certamente não, mesmo que muitas declarações levem a esse entendimento.

O jornalismo é, talvez, a mais multidisciplinar das carreiras, pois, para transformar os fatos em narrativas jornalísticas, é preciso conhecer a realidade, sua construção, contexto e as formas de melhor apurar o fato, investigá-lo e difundi-lo. O jornalista aprende a ser o guardião da narração eticamente correta. O principal produto do jornalismo contemporâneo, a notícia, não é ficção. Os acontecimentos ou personagens das notícias não são invenção dos jornalistas. Como aponta a própria campanha de “45 anos de Zero Hora”, o jornal não publica nenhuma notícia, a menos que ela aconteça.

Um jornalista aprende português, filosofia, história, legislação, sociologia, entre outras disciplinas. O que não quer dizer que indivíduos com a formação nessas áreas possam narrar os acontecimentos. Um jornalista aprende técnicas específicas de sua profissão, como reportagem, edição, linguagens para as diferentes mídias, estudos de recepção, formas adequadas de tratar um acontecimento, considerando princípios éticos. Jornalismo não oferece risco de vida?

Imagine-se as consequências para qualquer indivíduo que tenha acontecimentos mal apurados e amplamente divulgados na mídia a respeito de sua vida. E que condições emocionais tem um soldado de narrar os fatos por seu blog, diretamente de uma guerra? Pode um torcedor narrar o jogo de seu próprio time e garantir alguma imparcialidade?

Em plena sociedade da informação, é impossível falar em restrição à liberdade de expressão. A telefonia celular e a internet já estabelecem novas relações entre os cidadãos e o poder. Cada um é capaz de contar a sua história, mas não o fato sob suas muitas dimensões. Isto é função do jornalista. Nessa mesma sociedade, precisamos de garantias legais e regulação para que estejam bem formados aqueles que vão fazer a mediação em meio a tanto conteúdo.

Aqueles que vão garantir credibilidade aos fatos que nos chegam das mais diversas frentes. Os soldados e torcedores não desejam narrar os fatos jornalisticamente. Desejam apenas, como apontam as pesquisas, usufruir da liberdade de expressão que as modernas tecnologias oferecem. O jornalista aprende na universidade exatamente sobre qual é o seu lugar dentro da narração de um fato.

* Jornalista, diretora da Faculdade de Comunicação Social (Famecos), da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS)