Arquivo para Setembro, 2008

Agonia pública

* Texto feito em quatro mãos: Ananda Etges e Paula Cunha.

Leitos com nomes. Histórias que passam pelos corredores pálidos do Hospital de Clínicas de Porto Alegre. O movimento da emergência não pára um minuto. “Isso aqui está um caos”. A situação do local em uma quinta-feira como qualquer outra é impressionante. Dezenas de macas e cadeiras são acomodadas por todos os cantos, deixando pouco espaço para enfermeiros e médicos transitarem. “Caos” é como descreve uma paciente sentada entre vários outros na espera por atenção.
Três, quatro, dez dias. O tempo que passa rápido para visitantes é uma eternidade diante de quem precisa aguardar atendimento. Moisés Bittencourt chegou segunda-feira. Na quinta, já conhecia toda rotina do local. “Arranjei aqui um cantinho e me instalei”, afirma. Ele usa um fone de ouvido conectado ao celular. Assim, escuta rádio e foge do clima tenso: “Não é que tu tens que se acomodar, mas é o que resta”.
Um grupo de pessoas próximo de Moisés lida de outra forma com a permanência no local. Brincam uns com os outros como se já se conhecessem por anos. Porém, não são anos e sim, dias de espera. “A gente tenta passar o tempo assim, brincando para agüentar”, explica uma paciente com crise de labirintite na espera de um neurologista há três dias. Outros estavam ali há cinco dias com a promessa de um leito. Quando perguntados sobre a explicação para a demora, eles repetem com a fala já decorada: “Não podemos fazer nada, isso aqui é uma emergência”.
A identificação dos pacientes é escrita em papéis brancos que ficam pendurados nas camas ou onde quer que eles se encontrem acomodados. São Neuzas, Ilderceus, Recys, Almerindos, Juracys, Halinas, uma infinidade de nomes, dramas e histórias. Diva era uma senhora deitada em uma maca localizada atrás de um pilar. Dormia silenciosamente. O barulho do ambiente parecia não atingir o seu sono. Na hora do jantar ela estava acordada. Com os cabelos desalinhados e a mesma roupa que todos os outros pacientes, não lembrava a figura de uma diva. Mas ali, isso não tinha importância.
Dona Casturina é uma figura marcante. Segundo ela, há 15 dias chegou no Hospital para fazer exames e ainda está ali. Não entende porque depois de tanto tempo não recebe alta. “Os médicos não me falam nada, eu não sinto nada, só fome”. Casturina conta que não se dá bem com a comida servida ali, “é só uma galinha desfiadinha”. Pela manhã, pede para falar com o médico responsável e reclama com os enfermeiros.
Meio-dia e trinta é servido o almoço. A embalagem de isopor vem nomeada para cada paciente. A de Dona Casturina contém pequenas porções de massa, arroz, feijão e a falada galinha desfiada. Ela senta-se desanimada, come sem vontade, entretanto com fome. A hora da refeição não muda o ambiente. Apenas espalha um cheiro diferente no ar.
Durante o período da tarde, Dona Casturina está mais quieta. Ela assegura que todos ali a estimam. Pede que avise aos seus filhos que está bem e logo sairá dali. Não lembra a sua idade. A enfermeira Cláudia afirma que ela tem 82 anos e um câncer já em metástase. À noite, seu leito está ocupado por outro paciente. A funcionária informa a boa notícia: Dona Casturina recebeu a tão desejada alta.
Mais adiante, na mesma sala, está Ondina. Ela foi encaminhada pela instituição onde mora para o Hospital de Clínicas, esclarece uma enfermeira. Seus olhos são fundos e a pele marcada pela velhice. Os ossos estão visíveis por todo o seu corpo. Os joelhos se sobressaem diante da finura dos membros inferiores. As axilas parecem poços fundos embaixo dos braços. No meio da sua cabeça tem um buraco redondo sem cabelos. Provavelmente em função de algum procedimento médico.
Mesmo com as mãos e os pés amarrados, Ondina conseguiu arrancar o próprio soro. Enquanto limpa o sangue, a profissional da emergência declara que a paciente é “medonha”. Quando vão examiná-la a sua reação é tentar morder. Ela está ali porque teve um Acidente Vascular Cerebral (AVC). Também sofre de desnutrição. A enfermeira revela uma peculiaridade da senhora de 85 anos: “Ela chupa o dedinho”. A colega que ajuda a arrumar a cama sugere: “Arruma um bico pra ela”. As duas riem.
Iara chorava como uma criança cansada de implorar atenção. A porta aberta deixava seu choro ecoar por todo o ambiente. Ela e Albina, companheira de dor, ficavam em um quarto separado, ao lado da ala adulta. Uma enfermeira passa e olha, mas não faz nada para diminuir o murmúrio. Minutos depois um funcionário aplica algo no soro de Iara, que fala baixinho “Ai, dói, ai, ai, ai”. A reclamação se repete e repete.
Enquanto isso, Maria Dalila aguardava sentada há mais de seis horas para o que ela acredita ser um processo simples: limpar o útero para retirar um feto morto, procedimento chamado de curetagem. “Achei um exagero me colocarem aqui na emergência por isso. Estou ocupando o lugar de alguém”, expõe.
A movimentação do setor pediátrico era menor do que nos demais locais da emergência. Ali Bruno Ramos, de 7 anos, repousava com a mãe ao lado. Ela conta que o filho tem crises de ausência e convulsões. Afirma que tudo é resultado da falta de oxigenação no cérebro no momento do parto. Entretanto, não conseguiu comprovar sua hipótese de erro médico na justiça. Ninguém do Hospital Conceição assinou contra o responsável pelo nascimento do menino. Segundo a mãe, o “doutor” esperou demais.
“Isso aqui não é vida”, declara. Sem previsão para que o filho receba alta, relata que seguido está no hospital. As crises são imprevisíveis e para cuidar de Bruno deixou de trabalhar: “Tem que controlar as crises, senão vai ser uma criança em estado vegetativo”, explica a mãe com lágrimas no rosto.
Cláudia trabalha na emergência do Hospital de Clínicas há 11 anos e confessa que ali não se tem tempo nem de respirar. “Muitas vezes está relativamente calmo e de repente chega a ambulância com um paciente com parada cardíaca ou hemorragia e se torna um caos”. Também declara que é preciso ter paciência, porém já se acostumou, “Não é ter sangue frio, mas tem que se acostumar”.
O lado do médico é diferente. Enquanto as auxiliares de enfermagem passam horas limpando sangue, fezes e urina, eles realizam rondas periódicas. O doutorando Ughi Elson Cartana declara que é muito importante para a carreira médica passar por uma emergência. “É quando tu colocas tudo que aprendeu em prática, tens que saber fazer de tudo e tomar decisões rápidas”. Ele também destaca a ótima estrutura do Hospital de Clínicas: “Aqui não existe falta disso ou daquilo. Tem tudo aqui”, explica.


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